sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Dialogar com a arte traria contribuições para (re)pensarmos o mundo do trabalho? Se mergulharmos na poesia, poderemos ampliar os sentidos e os debates para além do pragmatismo teórico? 

Talvez sim, talvez não... Experimente ler em voz alta o poema Não há vagas, de Ferreira Gullar.

O preço do feijão 
não cabe no poema. O preço 
do arroz 
não cabe no poema. 
Não cabem no poema o gás 
a luz o telefone 
a sonegação 
do leite 
da carne 
do açúcar 
do pão 

O funcionário público 
não cabe no poema 
com seu salário de fome 
sua vida fechada 
em arquivos. 
Como não cabe no poema 
o operário 
que esmerila seu dia de aço 
e carvão 
nas oficinas escuras 

- porque o poema, senhores, 
   está fechado: 
   "não há vagas" 

Só cabe no poema 
o homem sem estômago 
a mulher de nuvens 
a fruta sem preço 

    O poema, senhores, 
    não fede 
    nem cheira. 

(Melhores Poemas, Ferreira Gullar, 1963) 

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